O amor a Deus é testificado pela medida do amor ao próximo
Os fariseus já tinham tentado armar uma emboscada para Jesus na apresentação da moeda que refletimos no último domingo. Poderiam eles terem decidido parar com as tramas, mas a inveja e a malignidade alimentam o descaramento e, novamente, eles perturbam a Jesus com perguntas maliciosas com a mesma finalidade: "Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?"
Na primeira leitura do Antigo Testamento, podemos observar a manifestação da ira de Deus contra aqueles que prejudicam o próximo. O texto descreve diversas situações nas quais a desobediência resulta em punição. O medo, o temor, procede da necessidade, o amor, da liberdade; quem serve a Deus por temor, evita o castigo, é verdade, mas não tem a recompensa da justiça, pois pratica o bem por medo. O Senhor não quer ser temido pelos homens, como a um amo, mas ser amado como um pai, pois concedeu aos homens o Espírito da adoção.
Amar a Deus de todo coração é como não ter o coração inclinado ao amor de alguma coisa mais que a Deus. Amar a Deus com toda a alma é como ter a alma muito segura na verdade e estar firme na fé. É semelhante àquela situação em que um pai pede ao filho para que seja honesto e todas as vezes que surge uma oportunidade de desobedediência, mesmo longe da presença do pai, o bom filho lembra-se do seu pai e de seus ensinamentos, e, por amor, honra e respeita seu pai não cometendo o delito.
Jesus diz que amemos a Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento! Nós somos assim “coração, alma e espírito”, nada fica “vazio” no ato de amar a Deus. Nenhuma parte fica de fora. O coração representa a nossa memória, todos os nossos pensamentos; a alma no oferecimento da própria vida; e o espírito como pertenças de Deus.
Enquanto estamos neste mundo, Jesus nos mostra como podemos amar a Deus. Amamos o próximo, amamos os que nos circundam, os entes queridos de nossa família até mesmo o colega de trabalho que faz de tudo para que caiamos. Amamos seja porque são justos ou para que se tornem justos. Aquele que ama o homem é semelhante àquele que ama a Deus, porque como o homem é a imagem e semelhança de Deus, Deus é amado nele. Por isso que o segundo mandamento é semelhante ao primeiro.
Jesus mostra através de sua vida terrestre como devemos proceder. Ensinou por meio de parábolas, mas, principalmente, por meio de suas ações. A prática do amor não é algo simples e fácil, pois exige de nós um conhecimento interior, uma mudança de vida, um desapego do mundo e de suas benesses. Um coração desprendido consegue enxergar além das aparências; uma alma apoiada na Verdade consegue força e vontade para fazer atos bons mesmo que a situação seja desagradável. Precisamos ter aquele olhar de Jesus pelos pecadores demonstrados nos Evangelhos; aquele olhar que não vê o que nos tornamos com o pecado e as nossas más escolhas, mas um olhar de quem quer o melhor de nós, aquele olhar profundo de querer para nós aquilo que Deus sonhou: a missão que temos, que nos foi designada e que é individual e insubstituível.
Antífona de Entrada
“Laetétur cor quaeréntium Dóminum: quaérite Dóminum, et confirmámini: quaérite fáciem eius semper. Ps. Confitémini Dómino, et invocáte nomen eius: annuntiáte inter gentes ópera eius. (Ps. 104, 3. 4 et 1)”
Exulte o coração dos que buscam a Deus.
Sim, buscai o Senhor e sua força, procurai sem cessar a sua face.
Sl. Dai graças ao Senhor, gritai seu nome,
anunciai entre as nações seus grandes feitos!
O salmo 104 conta parte da história do povo de Deus, da sua formação até a posse da terra prometida. É uma manifestação do louvor do povo acompanhada por instrumentos musicais. O salmo foi escrito para lembrar ao povo as ações de Deus na história e dos compromissos do povo aliado. Começa mostrando a promessa da terra prometida e termina mostrando a posse dela. O não cumprimento das leis de Deus fez o povo perder sua terra e a posse dela é a restauração de sua “aliança”. Por este motivo o povo deve buscar a face de Deus, sem cessar. Pois é no Senhor e pelo Senhor que restabelecem a alegria de terem de volta sua terra e a paz.
Buscamos ao Senhor “sem cessar” pois é próprio de quem AMA sempre buscar a presença do amado. Se pela fé encontramos a Deus é por O ter encontrado que buscamos incessantemente a Sua presença. Hoje, não nitidamente, mas na Eucaristia. Devemos buscar constantemente a presença de Deus, com o ardor de quem realmente O ama e O busca. É este o alimento verdadeiro de nossa fé. É esta busca que nos faz crescer na santidade.
Cantamos este salmo como canto de entrada nesta liturgia, confiando que Deus cumpre suas promessas para aqueles que “caminham na Aliança”. Precisamos buscar a face de Deus, que nos trará a salvação retratada no Evangelho. A busca de Deus é a oração que se torna parte integrante da vida do cristão, incessantemente. Precisamos sempre buscá-Lo para que caminhando com Jesus (na pessoa do sacerdote) possamos encontrá-lo um dia face a face. É a busca pelo Senhor que nos torna fortes para enfrentar o mundo e amar o próximo como a nós mesmos.
Salmo Responsorial 17
℟. Eu vos amo, ó Senhor, sois minha força e salvação.
Para esta liturgia que nos impele na busca de Amar a Deus, nada mais adequado do que o salmo 17. Davi dirigiu as palavras deste salmo cantando, no dia em que o Senhor o livrou das mãos de Saul. Todas as expressões deste salmo, não aplicáveis ao próprio Senhor, isto é, à Cabeça da Igreja, sejam relacionadas à Igreja. Fala nele o Cristo total, no qual estão incluídos todos os seus membros.
É notado que se alguém é capaz de dizer “eu vos amo ó Senhor”, também ama a todos que pertencem a Deus, todo o ser criado por Deus. Quem ama assim, sabe que pode contar com Deus e sua poderosa proteção. A Rocha que é Deus é quem nos sustenta. Estamos fortificados quando exercemos a tarefa de amar na plena liberdade de filhos e não de escravos do pecado e deste mundo que passa.
É Deus quem tudo governa com misericórdia. Como trata o salmo: “concedei ao vosso rei grandes vitórias”, ou seja, vitorioso é quem está apoiado em Cristo. Ele nos mostrou como venceu o mundo, e nos convida à salvação por meio de sua Cruz.
Cantamos este salmo nesta liturgia, apoiados na misericórdia de Deus que é sem fim, sabendo que exercendo o amor que Ele mesmo veio nos ensinar, estaremos salvos, seremos vitoriosos.
Antífona de Ofertório
Domine, vivífica me secúndum elóquium tuum: ut sciam testimónia tua. (Ps. 118, 107. 125)
Vernáculo:
Senhor, vossa palavra me devolva a minha vida
Para que eu possa compreender a vossa Aliança!
O salmo 118 é o salmo da Lei. Em cada versículo deste longo salmo se faz pelo menos uma referência à Lei. O versículo 107 está inserido em um contexto de meditação da palavra. O texto retrata a imagem de uma lâmpada que ilumina o caminho na noite escura. Esta lâmpada é a Palavra de Deus, sua Lei. No versículo 125 mostra um pedido. O salmista pede para não ser entregue aos opressores e soberbos e que conforme o amor de Deus possa compreender a aliança (ou testemunhos).
Diante das contradições da vida, humilhações sofridas, a fé não desfalece, por isso o salmo explica que “vossa palavra me devolva a minha vida”. É pela fé que caminhamos, ela é luz para os nossos passos. Quando queremos ser livres por nossas próprias forças, quando queremos caminhar segundo os nossos intuitos, nada encontramos; mas, quando nos tornamos servos (pobres) podemos nos guiar pela Palavra. É assim que compreendemos a “Aliança”. A Palavra é luz que ilumina nossos caminhos para que possamos compreender a “Aliança” (seus testemunhos).
A apresentação das oferendas é momento da entrega. Somos servos humilhados, necessitados da graça. O Senhor não precisa de nada, quem precisa somos nós. Ele é a fonte da luz, a claridade que ilumina a nossa mente para que possamos compreender tudo o que nos acontece.
Em meio as turbulências do mundo, estamos nós, implorando que Deus nos livre da cegueira espiritual que nos impede muitas vezes de enxergar suas Maravilhas e compreender a Divina Vontade. Meditando o salmo 118 nestes versículos, entregamos a Deus, com humildade, nosso intelecto, confiantes que é por Ele que podemos enxergar tudo o que é obscurecido pelo pecado ocasionado pela falta do cumprimento da Lei.
Antífona de Comunhão
Laetábimur in salutári tuo: et in nómine Dómini Dei nostri magnificábimur. (Ps. 19, 6; ℣. Ps. 19, 2. 3. 4. 5. 7. 8)
Com a vossa vitória então exultaremos,
Levantando as bandeiras em nome do Senhor.
A figura central deste salmo é o rei de Judá, descendente de Davi. Todo o texto se dirige a este rei. O rei está partindo para a guerra e o povo reza por ele expressando desejos: que o Senhor lhe responda, que em nome de Deus o proteja, que se lembre de suas ofertas, que aprecie o holocausto que oferece sobre o altar, que o Senhor satisfaça os desejos de seu coração, que realize seus projetos, que realize todos os seus pedidos.
Em um segundo momento um sacerdote responde ao povo que Deus concede a vitória contra os inimigos e que essa vitória não depende da quantidade da tropa (carros e cavaleiros) mas na invocação do nome do Senhor. A vitória é a salvação! Exultaremos porque a morte em nada nos prejudicará. Nós nos gloriamos no nome de nosso Deus. A confissão do Nome não só nos arruinará, mas nos engrandecerá. Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé.
No salmo o rei é o guerreiro majestoso, na Nova Aliança Jesus é o Rei, porém não mostra sua força pelo poder da espada, ou de posses, mas um poder que se revela no desapego deste mundo. Jesus é o “ungido” pelo Espírito para levar a boa notícia aos “desapegados” (humilhados, pobres) e trazer salvação (vitória). São eles os privilegiados do Reino de Deus. Sua “tropa” para realização do Reino é o “serviço”. Antes, o sacrifício era de animais, agora, o holocausto é do único Cordeiro Imolado, o próprio Cristo.
É um salmo de oração e resposta à oração. Remete-nos ao clamor do publicano, o cobrador de impostos, que em sua humildade crê que a sua salvação só pode ser dom de Deus, e mesmo sem merecer, a recebe.
Na comunhão nós somos o publicano, pobres e humilhados, necessitados do amor de Deus que alimenta nossa fé e nos santifica. Humilhados, lavados por teu sangue, apresentamo-nos face a face com Jesus, escondido em um pequeno pedaço de pão, Cordeiro de Pé, mas como que Imolado, a quem nada podemos esconder, para assim dizer: “Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!” Não mereço receber-te, mas aqui estás diante de mim a se entregar Corpo, Sangue, Alma e Divindade, por inteiro, para que a teu exemplo eu seja por inteiro vosso.
A doação de Jesus na Hóstia Santa é uma prova de amor, daquele que se entregou e se entrega por nós. Façamos o mesmo, pedindo forças a Jesus para amá-lo na caridade com os que mais precisam. É a Eucaristia que nos fortalece para a vida fora do Templo.
REFERÊNCIAS
SANTO AGOSTINHO DE HIPONA. Comentário aos salmos. Paulus, São Paulo – SP, 2008.
BÍBLIA DE JERUSALÉM. Tradução do texto em língua portuguesa diretamente dos originais. 8ª impressão, 2012.
CNBB, Missal Dominical. Missal da Assembleia Cristã.
BORTOLINI, J. Conhecer e rezar os salmos. Comentário popular para nossos dias. Ed Paulus. São Paulo, 2000.
CATENA AUREA – Exposição contínua sobre os evangelhos. Vol. 1: Evangelho de São Mateus. Santo Tomás de Aquino. 1ª edição. Julho de 2018 - CEDET

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