Quais são as nossas atitudes diante da vontade de Deus?
O Evangelho deste domingo traz um apelo à conversão. Na parábola, dois filhos, um nega sua missão e depois se arrepende, o outro aceita, mas depois não faz o trabalho. Este Pai é o Senhor Deus e nós, seus filhos. O Senhor nos envia para trabalhar em sua vinha; há, porém, os que dizem sim e depois não cumprem a vontade do Pai e por isso caem no pecado da soberba. Já os que negam, depois se arrependem (se convertem) e passam a obedecer.
A soberba é algo muito enraizado atualmente. Cada um tem sua própria “verdade”, seus próprios “conceitos” e assim os seguem sem que sejam jamais questionados, pois até mesmo “julgar” os pecados públicos tornou-se um crime. O chamado à conversão em determinadas circunstâncias é considerado um ataque à “liberdade”, afinal, todo mundo tem o “direito” de ser o que quiser e fazer o que quiser.
Nós sabemos que os espíritos malignos, no início, decidiram não obedecer ao plano de Deus pois não aceitaram servir aos seres humanos. Por este motivo o pecado da soberba é tão nocivo: traz o ser humano para ser o “senhor” de sua vida ignorando a vontade de Deus Pai.
“A soberba é geralmente confundida com um tipo de virtude, pelo que poucos se preocupam em combatê-la. Dá-se a impressão de que ser altivo e autossuficiente é coisa boníssima e desejável para qualquer pessoa. Mas, na verdade, o soberbo é incapaz de retroceder e reconhecer o próprio erro, como o segundo filho da parábola, que faz figura na frente do pai, mas se mantém irredutível na própria maneira de proceder. O primeiro filho, por sua vez, pode até vacilar um instante, mas acaba se dobrando diante da verdade, a exemplo das prostitutas e dos cobradores de impostos, que creram no testemunho de S. João Batista.” (trecho retirado do Pocket Terço)
Devemos ter o
olhar atento à vontade de Deus sobre nossas vidas. Ele que tudo criou conhece
exatamente como funciona todas as coisas e conhece nosso interior. Deus sabe o
que é melhor para nós e por este motivo nos dá uma missão, que é única e
insubstituível. Cumprindo a vontade de Deus poderemos alcançar a salvação, Ele
que nos perdoa e nos quer o bem. Como diz um trecho da oração da coleta de
hoje: “derramai sempre em nós a vossa graça, para que, caminhando ao encontro
das vossas promessas, alcancemos os bens que nos reservais.”
Antífona de Entrada
Omnia quae fecísti nobis, Dómine, in vero iudício fecísti, quia peccávimus tibi, et mandátis tuis non obedívimus: sed da glóriam nómini tuo, et fac nobíscum secúndum multitúdinem misericórdiae tuae. Ps. Beáti immaculáti in via: qui ámbulant in lege Dómini. (Dan. 3, 31. 29. 30. 43. 42; Ps. 118)
Vernáculo:
Senhor, tudo o que fizestes conosco, com razão o fizestes, pois pecamos contra vós e não obedecemos aos vossos mandamentos. Mas honrai o vosso nome, tratando-nos segundo vossa misericórdia. (Cf. MR: Dn 3, 31. 29. 30. 43. 42) Sl. Feliz o homem sem pecado em seu caminho, que na lei do Senhor Deus vai progredindo! (Cf. LH: Sl 118, 1)
Esse trecho da antífona de entrada refere-se ao Cântico de Azarias. Esta oração é feita em meio ao fogo. Para entender o contexto, precisamos voltar um pouquinho nesta história.
O Rei Nabucodonosor mandou confeccionar uma enorme estátua de ouro e obrigou todos os povos a adorar a tal estátua quando ouvissem o tocar de instrumentos musicais. Aquele que não prestasse adoração seria lançado na fornalha de fogo ardente. Os jovens Misael, Ananias e Azarias se recusaram a adorar a estátua e por isso foram lançados na fornalha. Em meio ao fogo, Azarias começa esta oração (antífona de entrada) em formato de cântico.
O louvor começa bendizendo ao Senhor por suas obras e justiça e, em meio à oração, ele confessa seus pecados, pois sabe que não obedeceram aos mandamentos, porém, mesmo em meio ao fogo clama pela misericórdia de Deus. Eles são atendidos e, após a oração, um anjo do Senhor desce até à fornalha e os refresca do fogo que não os atinge nem machuca e nem o cheiro da fumaça os toca. Depois disso eles louvam e glorificam a Deus através de um canto muito conhecido chamado “Louvor das criaturas ao Senhor” geralmente cantado na Liturgia das Horas principalmente nas festas dos mártires Apóstolos.
O salmo 118 que acompanha esta antífona é o salmo da lei. O início revela-nos o segredo da verdadeira felicidade. É caminhando longe do pecado que vamos crescendo na graça. É uma exortação necessária: se quer ser feliz mantenha-se em estado de graça. Fato é que não é de qualquer jeito que buscamos a Sagrada Eucaristia, mas com o coração limpo, digno de receber o Rei.
Cantamos esta antífona na entrada da Santa Missa neste 26º Domingo
do Ano A, sabendo que a verdadeira felicidade é fazer a vontade de Deus em
todas as coisas. Tudo começa com o louvor a Deus por ser a fonte de todo o bem
e depois um pedido de misericórdia, pois não somos dignos. Mesmo em meio ao “fogo”
destes tempos continuemos firmes louvando o Senhor e fazendo sua justíssima
vontade, mesmo que custe nossa vida.
Salmo Responsorial 24
℟. Recordai, Senhor meu Deus, vossa ternura e compaixão!
Provavelmente este salmo surgiu entre dois grupos desiguais: o salmista e seus adversários. O salmista percebe-se injustiçado pelos seus inimigos, que, segundo o salmo, transgrediram a lei, ou seja, não obedeceram a Deus. Ele pede que seja feita justiça, pede para que o Senhor se recorde de sua Aliança com o povo.
O refrão é um apelo: “lembra-te das obras de tua misericórdia, Senhor, porque os homens pensam que tu te esqueceste.” O salmista lembra de seus pecados como daquele que peca sem saber o que faz. Aqui nós podemos relacionar com o filho que primeiro nega a vontade do Pai.
O salmista continua pedindo e suplicando ao Senhor que proceda de acordo com a sua misericórdia, pois se levar em conta seus pecados não restará ninguém. É a bondade do Senhor que faz com que não leve em conta os pecados cometidos na ignorância.
Por fim, o salmo faz uma menção àqueles que com humildade seguem os desígnios do Senhor (uma oposição ao filho soberbo do evangelho). O Senhor não ensinará seus caminhos àqueles que se adiantam, como se pudessem melhor governar-se a si mesmos; mas ensinará àqueles que não levantam a cerviz, e que não demonstram resistência a obedecer quando se é imposto o jugo suave e o fardo leve.
Cantamos este
salmo nesta liturgia reconhecendo que Deus é misericórdia eterna e que se
reclina para aqueles que com humildade o querem servir, para aqueles que com
mansidão se dispõem a trabalhar na vinha do Senhor.
Antífona de Ofertório
Super flúmina Babylónis, illic sédimus, et flévimus, dum recordarémur tui, Sion. (Ps. 136, 1)
Vernáculo:
Junto aos rios da Babilônia nos sentávamos chorando, com saudades de Sião. (Cf. LH: Sl 136, 1)
Este salmo é um clamor dos exilados, salmo de súplica coletiva. O povo estava longe de sua terra natal. Na Babilônia são escravos e por isso choram. Desistem de cantar e tocar (“penduramos nossas harpas”), pois sentiam-se sem motivos para isso. A situação se agrava quando os guardas exigem que eles toquem, exigem alegria mesmo em meio à tristeza. Eles não sentem a menor vontade de cantar naquela situação.
Sabemos que vivemos em uma cidade e que há outra cidade a qual ansiamos. A cidade que teremos a paz eterna chama-se Jerusalém (visão da paz), e a cidade que vivemos, este mundo, chamamos de Babilônia (confusão).
Cantamos este
salmo na apresentação das oferendas, com piedoso afeto e religioso desejo da
cidade eterna, a qual antecipamos em toda Santa Missa sob véus da fé. A
esperança é na fidelidade de Deus que através de Jesus nos mostrou que
participando de sua Morte de Ressurreição através da Santa Missa, e sendo fiéis
aos mandamentos, Deus não nos deixará perecer em “Babilônia” pois nos
predestinou a sermos cidadãos de “Jerusalém”. Portanto, sejamos obedientes à Sua
palavra, trabalhemos em Vossa vinha com humildade e esperança.
Antífona de Comunhão
“Memento verbi tui servo tuo, Domine, in quo mihi spem dedisti: haec me consolata est in humilitate mea.” (Salmo 118,49.50)
Vernáculo:
Lembrai-vos da vossa palavra ao vosso servo, Pela qual me destes esperança. Isto me consola na minha humilhação. Estrofes: Sl . 118, 1. 2. 25. 28. 41. 74· 76. 81. 82. 114
O salmo da lei aparece mais uma vez nesta liturgia nos relembrando que é através da fidelidade aos mandamentos de Deus que poderemos alcançar a felicidade. A antífona de comunhão destaca os versos 49 e 50 que nos mostram “confiança e consolo nos conflitos”. O salmista sente-se um peregrino e, ainda assim, confiante nas promessas de Deus (“vossa palavra ao vosso servo”).
Que “palavra” é essa? Por que ele quer que Deus se lembre? Por acaso Deus se esquece?
O que se aplica aos homens, não se aplica a Deus. “O plano do Senhor permanece eternamente”(SL 32, 11), assim se diz quando ele se esquece quando parece retardar o auxílio ou cumprimento de suas promessas. Deus realiza tudo por decisão certa, sem falha de memória, nem obscurecimento da inteligência, nem mudança da vontade. Quando o salmista pede “lembra-se”, significa o desejo suplicante, pedindo o que foi prometido, ou seja, como o desejo de que a vontade de Deus seja cumprida.
E qual a sua humilhação? Por que isso lhe consola?
Como está nas escrituras: “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (Tg 4,6; 1Pd 5,5). O próprio Jesus proferiu: “Todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado”(Lc 14,11). Esta humilhação dita no salmo é aquela de quem sofre tribulação ou rejeição, merecidas pela soberba, ou quando se exerce ou prova a paciência, sabendo que o salmista confessou o seu pecado.
Ensina-nos o livro da Sabedoria: “Na dor, suporta, e nas vicissitudes de tua pobre condição sê paciente, pois o ouro e a prata se provam no fogo e os homens eleitos, no cadinho da humilhação” (Eclo 2, 4.5).
A humilhação é o momento do encontro da nossa fraqueza humana, a vergonha do reconhecimento do pecado que nos leva à morte, mas o consolo é a esperança da promessa da vida eterna. É um consolo saber que se perseverarmos até o fim seremos salvos.
Cantamos este trecho do salmo 118 na comunhão pedindo a Deus que se cumpra sua promessa, não nos deixe perecer. Seu Corpo e Sangue revigora as nossas forças para que não resistamos a fazer Sua vontade em oposição à atitude do segundo filho (Evangelho).
Nesta comunhão deste 26º Domingo Ano A, peçamos a Deus a graça de sermos humildes para obedecer a Seus mandados. O caminho é esse: conversão diária e cumprimento de Sua justíssima vontade. Que sejamos dóceis à Divina Vontade, acolhendo nossas cruzes do dia a dia com amor, para que unidos com Jesus possamos buscar a santidade.
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