29º Domingo do Tempo Comum Ano A | Entendendo as Antífonas

“Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”

The Tribute Money. Ano 1612. Óleo sobre madeira.  Peter Paul Rubens


A Liturgia deste domingo nos mostra quem é o Senhor de nossas vidas e a Quem devemos servir. É isso que nos recorda a Oração da Coleta logo no início da Missa: “Deus eterno e todo-poderoso, dai-nos a graça de estar sempre ao vosso dispor, e vos servir de todo o coração. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.” Quando nos dispomos ao Senhor, aos seus mandados, à Sua justíssima Vontade, estamos reconhecendo que ele é o Senhor de nossas vidas.

No Evangelho Jesus está no Templo, em meio aos “lobos”, que planejam mata-lo. Fazem perguntas capiciosas para buscar motivos para acusa-lo. Primeiro o bajulam para depois perguntar: “É lícito ou não pagar imposto a César?” ou então “É permitido a nós, judeus, pagarmos o tributo ao imperador pagão?”.

O momento histórico do tempo em que Jesus aqui habitou era assim: Deus era o rei do povo judaico; mais tarde, os judeus escolheram um rei; contudo, se esse rei era soberano, o era pela graça de Deus. Eles jamais consentiram em submeter ao domínio de um rei ou de um imperador pagão, considerando isso como uma ofensa ao próprio Deus. Agora, porém, no tempo do Cristo, o imperador romano reinava como senhor na Palestina e os judeus, constrangidos, gemendo, pagavam imposto de tributo ao soberano estrangeiro. 

Por outro lado, que ideia faziam os judeus do Messias? Eles esperavam um rei poderoso que os libertasse do jugo da dominação estrangeira e deles fizesse uma nação poderosa. Compreendemos agora, a malícia da pergunta. Os fariseus queriam dizer: “Tu te denominas de Messias; podes então aprovar que nós, o povo de Deus, povo livre, paguemos tributo ao pagão? Além disso, sabendo que os judeus só suportavam seu jugo, pois estavam sempre os Romanos de sobreaviso e dominavam com violência qualquer tentativa de revolta. A pergunta dos fariseus era uma espada de dois gumes.

Jesus, em sua resposta, pronuncia uma palavra de sentido profundo; Ele que pede que apresente uma moeda (pois ele mesmo não tinha nada) da qual estava a estampa do imperador romano. Se a moeda veio dele, para ele deverá voltar, portando, “dai a Cesar o que é de Cesar”.

O que quer dizer Jesus com isso?
Nós devemos dar à autoridade constituída o que lhe pertence. Essa resposta que, em sua profundeza e sua simplicidade, é inatacável, colocando seus adversários em fuga. Nessa breve palavra do Cristo, há muitos pensamentos que se ocultam. O Mestre diz em primeiro lugar: nós somos filhos de dois mundos, um terrestre, visível e outro sobrenatural, invisível; devemos cumprir nossos deveres nesses dois mundos. Como filhos de Deus e cidadãos do Reino de Deus, temos deveres para com o nosso soberano, o Senhor. Poderíamos então entender que nós, cristãos, não devemos nos ocupar com as coisas deste mundo, e que estaríamos desobrigados das coisas temporais? Não, mas o contrário.

Porque somos filhos de Deus devemos cumprir com as obrigações para com os superiores deste mundo. Fazemos parte de uma família, de uma sociedade, de uma nação e, por isso, Deus nos impõe também deveres para com os nossos pais e superiores temporais. Essas duas categorias de deveres não estão em oposição. O cristão deve ser o melhor cidadão, o melhor membro da família, da sociedade. E essa obediência à autoridade temporal não é somente um serviço prestado aos homens; antes de tudo é um serviço prestado a Deus. 

Mas quando que essa ordem pode falhar?

Nós acreditamos que os superiores deste mundo estão em seus cargos porque assim Deus permitiu, sejam eles bons ou ruins. De certa forma, Deus lhe deu o “poder”, por essa razão, e somente por isso, respeitamos o soberano poder de Deus, porém, na medida em que o “superior” representa esse poder. Mas, se algo é perceptível de ser contra a lei de Deus, que é maior, então o que me é superior não “representa” a Deus. Devemos ser bons cidadãos de Estado, porém ainda mais devemos ser bons cidadãos do Reino de Deus.

Demos a Deus o que é de Deus, ou seja, tudo o que temos e tudo o que somos, tudo isso é de Deus e para Deus; nada guardemos para nós. Corpo e alma, inteligência e vontade, coração e espírito Lhe pertencem; demos, pois, a Deus. Estamos em presença do grande mandamento do Reino de Deus. “Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu!”

Na Santa Missa entramos hoje no santuário, possuídos de sentimentos de penitência e com a alma preocupada, numa antecipação do julgamento. Sobrecarregados com os nossos pecados, clamamos ao Senhor pelo perdão, da profundeza de nosso exílio terrestre.

Antífona de Entrada


Texto original – Gradual Romano:
“Ego clamávi, quóniam exaudísti me, Deus: inclína aurem tuam, et exáudi verba mea: custódi me, Dómine, ut pupíllam óculi: sub umbra alárum tuárum prótege me. Ps. Exáudi Dómine iustítiam meam: inténde deprecatiónem meam. (Ps. 16, 6. 8 et 1)”

Clamo por vós, meu Deus, porque me atendestes; 
inclinai vosso ouvido e escutai-me. 
Guardai-me como a pupila dos olhos, à sombra das vossas asas abrigai-me. 
Sl. Ó Senhor, ouvi a minha justa causa, escutai-me e atendei o meu clamor!

O Salmo 16 é uma súplica individual. Esta oração surgiu no Templo que funcionava como tribunal superior. Alguém que está sendo injustiçado refugia-se no Templo para ser julgado. No texto, o salmista (o “justo”) está sofrendo com os “homens” que transgridem as normas de Deus. O justo é para Deus como a “pupila dos olhos”, que é aparentemente pequenina, insignificante; no entanto, ela regula a penetração do olhar que distingue a luz das trevas, assim como o julgamento divino ao discernir justos e pecadores passa pela humanidade de Cristo. Ele o protege como uma águia que abriga à sombra de suas asas seu filhote. É Deus de “corpo e alma” comprometido com a justiça, como guerreiro vencedor. 

O salmo mostra referências de diversas partes do “corpo” de Deus, mostrando que Ele está comprometido vitalmente com a justiça e com o justo que por ela luta. Em comparação com esta liturgia, lembramos que a Igreja são como várias partes do corpo de Cristo (assim como na referência deste salmo) e toda ela está comprometida com este mesmo ideal de luta contra as injustiças deste mundo, não somente corporais, mas principalmente, as espirituais (alma).

Ao cantarmos este salmo como canto de entrada, adentramos ao Templo, representados pelo Sacerdote (pessoa de Cristo) e seus ministros, em oração nesta procissão rumo à Jerusalém Celeste. Passamos ou passaremos por tribulações e injustiças do mundo fora do Templo, mas ali estamos abrigados à sombra de Suas asas. É participando da Morte e Ressurreição de Cristo que seremos saciados, pela graça, e prontos para enfrentar as injustiças deste mundo; e assim, provados, seguimos firmes nas leis de Deus (“dai a Deus o que é de Deus”) rumo ao céu. 

Salmo Responsorial - Sl 95


℟. Ó família das nações, dai ao Senhor poder e glória!

Este salmo é da família dos hinos, tem muitas semelhanças com os hinos de louvor, mas é considerado o salmo da realeza do Senhor pela expressão “Deus é Rei” e por isso há muitos convites ao louvor.

O refrão escolhido para esta liturgia nos mostra quem é o superior do qual devemos a glória, o poder, a honra! Todas as nações, todos os reis e poderosos desta terra devem o poder e a glória ao Senhor, Rei do Universo. É Deus quem governa o mundo e dá poder.

Devemos ao Senhor um “canto novo”, porque é o grande Rei de toda a terra! O canto velho é o canto do pecado. O próprio cantar é um modo de edificar, se for um canto novo. Os desejos da carne cantam o canto velho; o novo é cantado pela caridade que vem de Deus. O louvor não é belo na boca do pecador (Eclo 15,9).

“Deus é grande e muito digno de louvor”. Veio a este mundo, fez-se homem, foi amamentado, cresceu, ensinou, amou, amou até o fim; foi humilhado, cuspido, esbofeteado, açoitado, coroado de espinhos, crucificado, morto, transpassado pela lança. Devemos ter conhecimento que Ele sofreu tudo isso: pois é “grande e muito digno de louvor”. Não desprezemos sua pequenez, mas compreendamos como é grande. Fez-se pequeno, porque também éramos pequenos; compreendamos como é grande, e Nele nos tornaremos grandes. É assim que se edifica a casa, assim que se levanta a construção.

Levantemos a Deus este salmo de louvor ao Deus soberano que governa todas as nações do mundo com poder e glória. Podemos não perceber a glória de Deus em meio a tantas coisas tristes que o mundo nos apresenta, mas se tivermos o olhar sobrenatural sobre todos estes acontecimentos, iremos “estremecer diante dele”, pois o Senhor julgará a todos nós com justiça e equidade.

Antífona de Ofertório


Texto Original – Gradual Romano: 
Meditábor in mandátis tuis, quae diléxi valde: et levábo manus meas ad mandáta tua, quae diléxi. (Ps. 118, 47. 48)

Vernáculo:
Meditarei em vossos mandamentos, que tanto eu amo;
E levantarei as minhas mãos 
para os vossos mandamentos, Que eu amo.

A atenção deste salmo é posta na Lei de Deus. É o nosso critério de sabedoria e de vida numa sociedade conflituosa. Cumprir a Lei é a vontade de Deus é dar passos na sabedoria. Temos nosso deveres de cidadãos deste mundo, mas não podemos esquecer jamais que a lei de Deus vem em primeiro lugar.

Os versos propostos para a antífona, expressa um pedido e uma promessa. O justo promete cumprir uma série de coisas se Deus enviar a ele seu amor e sua salvação, conforme prometeu. O salmista promete três coisas: cumprir sempre a vontade de Deus, andar nos caminhos dos preceitos e testemunhar corajosamente diante dos reis. E, assim, medita nos mandamentos de Deus.  Importante ressaltar que testemunhar corajosamente é lembrar dos mártires, que com coragem testemunharam sua fé até as últimas consequências. Assim também nós somos convidados a testemunhar a nossa fé.

Este amor de que fala o salmista é a graça do Espírito Santo, que derrama em nós a caridade e dilata os corações dos fiéis (cf Rm 5,5). Amou os mandamentos de Deus em pensamentos e obras, pois, quanto aos pensamentos: “meditarei em vossos mandamentos”, e, em obras: “e levantarei as minhas mãos para os vossos mandamentos”. A ambas as frases acrescenta: que tanto amo. A finalidade do preceito é a caridade, que procede do coração puro (cf Tm 1,5). Quando se cumpre o mandamento de Deus visando a tal intenção, a obra é verdadeiramente boa; e então as mãos se erguem, porque acha-se no alto a finalidade porque se levantam.

Diante da apresentação dos dons, ao cantar este salmo, oferecemos nossas obras, tendo como base a Palavra de Deus e o amor, fruto do Espírito Santo que nos impulsiona à caridade de Cristo. É Ele que daqui a pouco irá se oferecer por inteiro a nós, repetindo o que fez no alto da Cruz. Também queremos estar sustentando seus braços que intercede por nós junto ao Pai com a nossa vida: testemunho corajoso perante os soberanos deste mundo, oração e caridade, nosso fim último.

Antífona de Comunhão


Texto Original – Gradual Romano: 
Domine Dóminus noster, quam admirábile est nomen tuum in univérsa terra! (Ps. 8, 2ab; ℣. Ps. 8, 2c. 3. 4. 5. 6-7a. 7b-8. 9)

Ó Senhor, Senhor nosso,
Quão admirável é o vosso nome em toda a terra.
– Desdobrastes nos céus vossa glória * 
com grandeza, esplendor, majestade. 
=3 O perfeito louvor vos é dado † 
pelos lábios dos mais pequeninos, * 
de crianças que a mãe amamenta. [...]

Este salmo é de louvor à grandeza de Deus que fez o ser humano o centro e o senhor da criação. A maior obra de Deus é o ser humano, feito à sua imagem e semelhança (Gn 1, 26-27). O coração deste salmo é a pergunta: “o que é o homem?”.  O salmista pergunta sobre sua identidade. Se é tão grande a diferença entre o Criador e a criatura, qual a posição e o lugar do homem na criação? 

A antífona escolhida para o salmo é a forma de expressar o quão grandiosos é Deus perante todos os homens criados à sua imagem e semelhança. Desceu à humildade terrena e elevou-se acima dos céus. Apresentou-nos como que se vive aqui para que assim pudéssemos também vos louvar no céu. Porque Ele é o nosso único Senhor e é nosso!

O salmo também mostra um conflito ao meditar sobre a criação. A arrogância impede o ser humano de reconhecer que a criação é espelho de Deus e que ele próprio não é Deus, mas alguém criado à sua imagem e semelhança. Opostos aos arrogantes e soberbos estão os pobres e humildes (crianças e bebês) que descobrem e aceitam seu lugar de criaturas e, ao mesmo tempo, louvam o Criador além daquilo que as palavras humanas possam exprimir. E por isso são capazes de perceber a mão de Deus em tudo o que existe na criação, pois ela é obra de seus “dedos de artista”.

Não tiremos o foco da Palavra que diz: “o perfeito louvor vos é dado, pelos lábios dos mais pequeninos, de crianças que a mãe amamenta”. O bebê ao alimentar-se, não está manifestando nenhum som, nenhuma palavra, apenas recebe o leite materno que é o suficiente para sua existência. A sua vida depende exclusivamente daqueles braços que o sustentam e do leite de sua mãe. A nossa vida deve ser isso: como o coração puro das crianças, e confiantes em Deus, jogados em Seus braços, bebendo o puro leite espiritual.

Santo Agositnho, comenta este trecho do salmo: “Devemos tomar em geral por inimigos desta economia de Jesus Cristo (o alimento espiritual), de Jesus Cristo crucificado, todos aqueles que impedem o homem de acreditar em coisas desconhecidas e prometem uma ciência certa, como fazem todos os hereges e os que a superstição dos pagãos denomina filósofos. Não digo que seja censurável a promessa de ciência, mas que eles julguem desprezíveis os degraus salutíferos e necessários da fé, pelos quais importa subir a uma segura meta, que só pode ser eterna. Evidencia-se com isto não terem nem mesmo a ciência que promete, depreciando a fé, porque ignoram esses degraus tão úteis e necessários.”

Após recebermos a Sagrada Eucaristia ergamos um verdadeiro louvor a Deus no silêncio de nossos corações e com inteira confiança em Deus, “como crianças que a mãe amamenta”; deitados em seus braços contemplando, através da fé, a face de Deus. Neste tão breve momento de comunhão, recebemos todo o carinho, força, fé, sustento, o leite espiritual para o crescimento de nossa alma e consequentemente do corpo. E, obedientes, como crianças a seus pais, cresçamos na fé, na confiança e no testemunho de Cristo em nossa vida que precisa ser enfrentada e vencida do lado de fora do Templo.



REFERÊNCIAS


SANTO AGOSTINHO DE HIPONA. Comentário aos salmos. Paulus, São Paulo – SP, 2008.

PIUS PARSCH. No Mistério de Cristo. O Ciclo Temporal do Calendário Litúrgico, traduzido e adaptado por Dom Beda Keckeisen, OSB. 3ª Edição. 1953.

BÍBLIA DE JERUSALÉM. Tradução do texto em língua portuguesa diretamente dos originais. 8ª impressão, 2012.
CNBB, Missal Dominical. Missal da Assembleia Cristã.

BORTOLINI, J. Conhecer e rezar os salmos. Comentário popular para nossos dias.  Ed Paulus. São Paulo, 2000.

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